Destaque

A Lapa e a Noite

Hoje é terça-feira, mas pra mim o sol do sábado passado ainda não nasceu. A noite de sexta foi como glitter depois do carnaval. Daqui a anos ainda vou encontrar vestígios dessa noite em mim. Engraçado como eu tinha desistido de ti mas a noite de sexta nos stalkeou até o nosso encontro com ela. Não nos deixaria escapar.

Eu falo que tinha desistido, mas a verdade é que o nosso beijo naquele primeiro dia fora curto demais — e seguido por rapazes demais anotando meu telefone — para que fizesse assim tanta diferença. Eu não te conhecia. Da metade deles eu sequer lembraria o rosto pela manhã. Do teu eu lembrei. É claro que eu notei a eletricidade quando tu me tocaste. Mas não era a primeira vez que eu sentia aquilo e nem será a última. E tu me pareceste um tanto perigoso demais para o meu gosto. Quando te beijei, eu não tive controle sobre você. Quando me beijou, eu não tive controle sobre mim. Vi você cometer suicídio, pulando de um precipício. Vi o sorriso com que tentou o homicídio contra mim, os olhos selvagens e azuis enquanto me puxava precipício adentro. Preso pela língua na tua, eu fui.

A verdade, entretanto, é que eu tinha desistido de você e, se estou sendo sincero, não passei muito tempo remoendo isso quando você não falou comigo no dia seguinte. Dias seguintes são para seguir em frente, até que você encontre um dia bonito o suficiente para que você decida que vai durar. Ou uma noite.

Talvez seja uma doença isso de querer viver para lembrar todo e cada dia vivido. É como a Charlotte Gainsbourg diz em “Ninfomaníaca”. Algo sobre como, no final das contas, o que a difere das outras pessoas é que ela sempre demandou mais do pôr-do-sol. Mais cores espetaculares quando o sol batia no horizonte. Esse talvez fosse seu único pecado. Acomodar-se ao seu pôr-do-sol ordinário, esse é o exemplo do bom cristão. Eu jogaria gasolina no sol por um crepúsculo espetacular a mais.

Mas a sexta te mostrou aquele desconhecido que parecia comigo e só por isso tu vieste me chamar, pra saber se era eu. A Noite de Sexta tem seus ardis. Íamos ambos para a Lapa, por coincidência. Era a minha última noite no Rio e meu vôo para Brasília já partia logo pela manhã. A Lapa e a Noite logo pararam de fazer-se de desentendidas e revelaram seu plano. Eu já estava com a mão no celular pra te chamar. Um mar de gente e bastou eu levantar o rosto pra te encontrar olhando pra mim. Lindo, alto, despretensioso, um ar genuíno e inconsciente de James Dean. Bem ali, no meio da Mem de Sá.

A Lapa nos engoliu como uma dose de cachaça de cinco reais. Uma de gengibre, outra do milho. Começou nos bebericando como a cerveja ruim que bebíamos mais cedo, enquanto nossas amigas fingiam que queriam estar ali. Olhando em retrospecto, de nossas amigas, a Lapa só queria que nos dessem a carona e logo as deixou partir. Ficamos nós dois à deriva e alguma coisa na maneira com que passou os braços nos meus ombros me fez achar que eu nasci pra estar ali.

A Lapa e a Noite de Sexta nos queriam ali, boêmios, a esmo e, ainda que só por aquela noite, apaixonados. A Lapa e a Noite de Sexta são um casal de lésbicas, um tanto bêbadas, um tanto amalucadas, completamente amorosas e sábias e elas nos disseram: “que casal lindo, vocês dois venham lá pra casa”.

No caminho, a trilha sonora eclética daquele casal lésbico surreal. Tinha algo de gafieira, algo de baile funk e uma Joana de chapéu rosa. Gente falando de maus romances, de gente querendo sentar na gente, e gente querendo botar o bloco na rua. Gente jogando glitter na gente. A Lapa e a Noite de Sexta formavam um lar movimentado, cheio de vida, meio perigoso, meio vadio. Achamos um cantinho nosso, naquele hotelzinho imundo de quinta e eu senti medo de você. Você aberto para mim e me abrindo até não haver mais nada pra esconder. Tanta gente mandando parar, tanta gente dizendo que vamos longe demais. Mas você de mim só queria mais. Em vez de pare, venha. “Fica calmo, tu tá comigo”. E essa tua fala era para mim um imperativo. E me parecia óbvio que o fosse para os outros para mim. Quando dizias isso, parecia inconcebível para mim que algo de mau pudesse nos atingir. Era plena madrugada e no Rio de Janeiro inteiro não havia nada tão seguro nem tão letal quanto o teu contorno nu contra a luz fraca que vinha do banheiro. Só por aquela noite, a gente foi infinito. Sexta a noite na Lapa a gente viveu pra sempre.

A Lapa e a Noite nos misturaram, então, num mesmo coquetel e eu não sabia mais qual era o meu gosto sem o seu. A gente explodiu de sabor. Ébrios e adocicados. Acordamos na ressaca. A nossa, e a de Copacabana. No avião, esse nosso romance dava o tom da viagem enquanto eu chorava ao ser levado embora. Pra longe da noite de sexta, pra longe da Lapa. Pra longe de você. É tão triste (só) lembrar. Mas que pior seria não termos feito as lembranças. Viagem só serve pra se apaixonar. Agora nós sempre teremos a Lapa e a Noite. Quando me quiser, siga o glitter ou deixe a Lapa a Noite te brindarem e te beberem como uma dose de cinco reais. Hoje é terça feira, mas a Noite de sexta na Lapa nunca terminou. Sexta a noite na Lapa eu e você vivemos pra sempre.

Anúncios

Menino lindo

Ando cansado de fingir que não te vejo

de fingir que não lembro

dos nossos outros carnavais

Ando farto de me fazer de rogado

de fingir que estou ocupado

que me chamaram do outro lado

pra não ver você passar

Meu pescoço chega a doer

do esforço de olhar pra trás

sempre que passo por ti

sempre fingindo que não sei

que és, menino lindo

desses a gente corre mesmo atrás

Hoje eu já decidi

vou falar contigo

na verdade, eu já te vejo vindo

tomara que eu não dê pra trás

Olha, você me desculpe a demora

mas é que quando te vejo rir

eu perco a hora

e distraído, entretido, te deixo ir

mas isso acaba aqui

Ei você aí

te acho lindo

vim roubar um beijo teu

que eu mereço

em troca de todos os olhares meus

que, passivo, te vi roubar

de dentro dos indefesos olhos meus.

 

 

 

Eu vim aqui hoje à noite pra deixar você

Eu vim aqui hoje à noite pra deixar você

Estou com medo que você diga

Que a mim vai sempre querer

Tenho medo que me diga que eu, justo eu

Fui o amor da sua vida

E que já não vê agora em nada sentido

Depois dessa despedida

Se tu já não estiveres comigo

 

Eu vim aqui hoje à noite pra deixar você

Eu não quero que você me diga

Que amar é cuidar, minha querida

Porque a gente já aprendeu que amar também é abandonar

Deixar ir

Libertar

 

Eu não quero ouvir de você

Que aceitará esse amorzinho simpático

Que a você tenho dedicado

Na falta de uma paixão arrebatadora

E na falta de um amor desses pra vidas vindouras

Que eu lhe pudesse oferecer

 

É que você merece tudo isso e muito mais

E não serei eu aquele que vai ficar te segurando pra trás

 

Eu vim aqui hoje à noite pra deixar você

Mas mais do que tudo

Tenho medo que me diga que te embosquei sem saber

Que te peguei desprevenido

Que achavas que estivéssemos bem

Andando juntos no mesmo sentido

 

Tenho medo que me diga que nós vamos ficar bem

Que eu vou ver só

 

Tenho medo que me diga que eu estou só estressado

Nervoso

Sobrecarregado

E que em alguns dias tudo vai voltar ao normal

Tenho medo porque

Sei que terei então que te dizer

Que, minha querida

Como posso eu te satisfazer?

Como posso te dar mais do pedes por favor

Se me pedes mais justamente daquilo que já não tenho pra dispor?

Como dizer que vai ficar tudo bem daqui pra frente

Se a verdade é que te amo agora um pouco menos que antigamente?

 

Como podes não notar?

Quanta força tens pra ignorar?

Com que venda foi que conseguiste deixar de ver?

Como fazes para não enxergar

Que meus olhos já não se demoram mais em você?

Como não te revoltaste com os beijos rápidos

Com os toques sem tesão

Dei-te todas as pistas

Não tens agora o direito de alegar confusão

 

Vejo, porém, agora que já vens chegando

O café vai no mais profundo silêncio mergulhando

E constato que, veja só, o que está escrito em teus olhos

A mensagem que lá facilmente se lê

E que fica mais e mais clara a medida que se aproximas

É que tu já tens certeza de nossa sina

 

Vejo também que choraste, é verdade

Mas vejo que as lágrimas foram deixadas para trás

A medida que caminhas ao meu encontro

Vejo em ti a tranquilidade no olhar de quem já sabe o que vem fazer

De quem marcha firmemente rumo ao final

De quem agora já sabe com todas as letras, afinal

Que eu vim aqui hoje à noite pra deixar você.

Precisamos falar sobre o Brasil: o realismo fantástico nosso de cada crise

Eu prometo que vou lhe deixar terminar. Prometo que vou deixar você me xingar do que quiser. De bicha, viado, de petralha, de comunista, de cargo comissionado (que, de antemão, já adianto que não possuo), enfim, do que você quiser. A sua necessidade de descarregar um ódio inexplicável, contra tudo e todos que são/pensam diferente de você pouco me importa. Mas antes disso, dessa vez, eu vou bater o pé no chão e vou insistir que você me ouça. Ou leia, né? Ouça o que tenho a dizer, leia essas palavras e aí, então, fique à vontade. É que já estou farto de ver mal entendidos intencionais se avolumando uns sobre os outros e sendo oportunisticamente aproveitados para inflar o tamanho desta crise econômica e pra alterar as cores da crise política. Já estou farto de fazer menos do que eu posso a respeito. Por isso resolvi fazer a única coisa que posso fazer, porque é o que faço melhor: escrever. Você agora vai, portanto, me ler até o final, depois do que, sinta-se livre para proceder como bem entender.

Me desculpe se soo um tanto autoritário. Mas é que ando precisando muito conversar. Você e eu temos adiado esta conversa e temos deixado de nos dirigir aos mal entendidos que nós sabemos que vêm atravancando a nossa relação. Mas é chegada a hora de batermos este papo. Precisamos conversar sobre o Brasil.

Precisamos porque, diante do espetáculo de horrores que se presenciou na Câmara dos Deputados, durante a votação da admissibilidade do processo de impeachment contra a presidenta Dilma Rousseff, eu preciso ter certeza de que tudo isso não passa de um mal entendido. Que se você está aplaudindo um processo conduzido por réus de corrupção, para tirar uma presidenta que, a despeito das eventuais fragilidades e incompetências do seu problemático governo, não é acusada de nenhum ato de corrupção, que se você está aceitando sentar à mesa com figuras como Bolsonaro e Eduardo Cunha, é porque não entendeu as coisas direito e está precisando que alguém as explique melhor. Eu quero muito acreditar que é tudo um mal entendido, ainda que receie não ser. Mas vamos dar uma nova chance ao diálogo entre nós. Uma última chance.

Acho que é seguro concluir que, com base nas palavras de ordem entoadas exaustivamente e escritas ostensivamente nas redes sociais e nos protestos a favor do impeachment da presidenta Dilma, que a agenda oficial principal deste movimento pró-impeachment é o fim da corrupção. Tá bem? Então, tá bem.  De repente, parece que todo mundo encheu o saco de tanta corrupção. De repente todo mundo NÃO AGUENTA MAIS essa “roubalheira”, essa “safadeza”. De repente, depois de mais de 500 anos de corrupção, patrimonialismo, desigualdade social, racismo, machismo, xenofobia, homolesbotransfobia, o brasileiro médio, e, em especial as classes B e A, a julgar pela demografia majoritária dos protestos em favor do impeachment, resolveu chutar o pau da barraca. Ótimo. Eu, pessoalmente, desde que adquiri um mínimo de consciência cidadã, já venho querendo chutar o pau da barraca e sempre me surpreendeu que os brasileiros não tenham-no feito antes. É seguro dizer também, portanto que, se discordamos, certamente não é em nossa indignação contra a corrupção. Não, meu caro, nesse ponto, “tamo junto”. O meu problema é, na verdade, o timing dessa sua indignação, frequentemente histérica, que quase o levou a arremessar uma latinha de cerveja em minha direção naquela loja de conveniências, porque eu ousara discordar de sua posição a respeito do juiz Moro. Lembra? É que, para mim, está claro que o Brasil não virou Brasil de 13 anos para cá. O Brasil é o resultado de processos de exclusão e de mistura das coisas públicas e privadas que já duram mais de cinco séculos. Por que agora essa indignação toda? Alguma coisa deve ter mudado.

Os muitos escândalos que temos acompanhado no cenário político brasileiro são verdadeiramente surreais e estapafúrdios. Não há dúvidas. Mas, me explique, por favor, o que há de novo sob o sol? Sempre fomos um país de extremos, de exageros. Sempre fomos, de uma forma ou de outra, fantásticos. Somos um país cuja própria fundação da república, a despeito dos processos democráticos e populares dos quais ela costumava resultar em países europeus e nos EUA, resultou de um motim das elites imperiais para permanecerem no poder e manterem seus velhos privilégios. É claro que, até na proclamação da república haveríamos de ser um país sui generis, tão profunda a captura do estado pelas elites. Somos o país da fabulosa Guerra de Canudos e de Antonio Conselheiro, de personagens reais tão fantásticos e controvertidos que se tornaram mitos, como Lampião e Maria Bonita, Luís Carlos Prestes e Olga Benário. Somos o país que foi governado na ditadura e na democracia pelo mesmo presidente, Getúlio Vargas, responsável  tanto por crassas arbitrariedades e violações de direitos como pelos maiores avanços nos direitos trabalhistas da história do Brasil, até o presente. O país em cujo governo, este mesmo presidente, supostamente, teria cometido suicídio para evitar um golpe de estado que se avizinhava e que terminou por acontecer, de qualquer maneira, alguns anos depois. O país de Juscelino Kubitschek, o presidente megalomaníaco que, em cinco anos, planejou e construiu UMA CIDADE futurista e transferiu a capital do país para o local. Onde um outro presidente foi derrubado no auge da Guerra Fria, acusado de ser comunista, por um exército que prometia um governo apenas temporário, mas que instalou uma ditadura de duas décadas de muita violência, desigualdade e sangue, tudo com o apoio daquelas mesmas elites, e dos maiores meios de comunicação.

Só nos últimos 30 anos desde a redemocratização, tivemos super inflação, várias moedas diferentes, e um presidente impedido por confiscar o dinheiro de poupanças. Tivemos Fernando Henrique Cardoso escandalosamente comprando deputados para votarem a emenda constitucional que permitiria a sua própria reeleição. Tivemos o escândalo do BANESTADO, julgado pelo mesmíssimo Sérgio Moro da Lava-Jato, inclusive, e que jamais levou para a cadeia os envolvidos diretos e que possuía cifras dezenas de vezes maiores que as da corrupção na Petrobrás. Tivemos Lula, um operário sindicalista, sem nível superior, ascendendo a presidente da república com um discurso de ética e moralização da política e promovendo a maior ascensão social da história do país, com mais de 40 milhões de pessoas saindo da miséria. E, tivemos, esse mesmo partido do presidente Lula sendo pego nos mesmíssimos esquemas de corrupção que havia se elegido para combater. Vimos o Brasil passar pelo melhor momento econômico da sua história e agora estamos vendo-o em uma de suas piores crises, tudo isso dentro dos últimos 13 anos.

O Brasil é fantástico, não? No mais literal sentido da palavra. Essa natureza fantástica da nossa realidade já havia sido identificada no âmbito mais amplo da América Latina. Relendo o, agora, mítico “Cem anos de solidão” do colombiano Gabriel García Marquez, vencedor do Prêmio Nobel de literatura, deparei-me com o discurso de aceitação proferido pelo escritor por ocasião da premiação que lhe concedeu o título, na década de 1980. Embora discurso seja um tanto extenso (mais de três páginas na versão que eu possuo), há um trecho do texto em específico que, como suspeito que aprendem a fazer todos os grandes romancistas, concentra toda a essência da mensagem que Gabriel transmite, também em fragmentos, ao longo do ensaio. A saber:

“[…] Eu me atrevo a pensar que é esta realidade descomunal, e não só sua expressão literária, que este ano mereceu a atenção da Academia Sueca de Letras. Uma realidade que não é a do papel, mas que vive conosco e determina cada instante de nossas incontáveis mortes cotidianas, e que sustenta um manancial de criação insaciável, pleno de desdita e de beleza, e do qual este colombiano errante e nostálgico não passa de uma cifra assinalada pela sorte. Poetas e mendigos, músicos e profetas, guerreiros e malandros, todos nós, criaturas daquela realidade desaforada, tivemos que pedir muito pouco à imaginação, porque para nós o maior desafio foi a insuficiência dos recursos convencionais para tornar nossa vida acreditável. Este é, amigos, o nó da nossa solidão. […]”

Marquez explica, portanto, em poucas linhas, aquilo que consiste tanto na maior beleza da maneira latino-americana de viver, quanto no nó de nossa solidão, aquilo que, ainda no século XXI, separa-nos e, por vezes, nos torna incompreensíveis ao resto do mundo. Essa nossa realidade descomunal e fantástica, para qual o atual cenário político brasileiro tem chamado atenção uma vez mais. Afinal, a não ser que se estivesse vivendo debaixo de uma rocha nos pelos últimos meses, seria impossível escapar de ouvir a tirada, já enfadonha, segundo a qual “House of Cards (série de ficção da Netflix sobre os bastidores da política americana) está perdendo feio para o cenário político brasileiro”. Há ainda o vídeo do escritor americano John Green, que consiste numa tentativa problemática, porém válida, de explicar a crise política brasileira para o público americano e que, de cara, alerta: O Brasil não é para iniciantes.

O fantástico esteve, assim, sempre muito próximo de nós,  latino-americanos. São incontáveis golpes de estado, ditaduras, revoluções. Personagens históricos que, não estivessem cuidadosamente documentados, não poderíamos crer que realmente existiram. Então, qualé a surpresa em ver as bananas de nossa república? Você me desculpe, mas as palavras de ordem que vejo impressas em seus cartazes e, aqueles a quem você elegeu como heróis da sua luta, me impedem de comprar essa sua súbita indignação.

Não me entenda mal. Há muito com o que se indignar. Mas nesse ponto, posso apenas falar por mim. Para mim, o choque é culpa minha mesmo. Minha, porque me deixei acreditar que, trinta anos após a redemocratização, a sétima economia do mundo, o país que saiu do mapa da fome e retirou 40 milhões de pessoas da miséria, tinha tornado-se uma democracia, ainda que imperfeita, sólida e que já não era a república de bananas que um dia foi. Os acontecimentos recentes denunciam, porém, a superficialidade da minha percepção. Tão superficial quanto o pacto político fragilíssimo de Lula com as elites e a direita.

Veja só: vimos há poucos anos, Dilma Rousseff, a primeira mulher a ser eleita para o cargo de presidenta da República, e que havia sido torturada pela ditadura militar, ocupar o cargo de chefa suprema das forças armadas. Menos de quatro anos depois, passamos a assistir este governo desmoronar em meio a inépcia, a rigidez, a uma crise econômica mundial e a uma crise política produzida. Vimos um eterno candidato à presidência que, não se conformando em perder as eleições, contribuiu para mergulhar o país inteiro no mais completo caos político até, ao que tudo indica, produzir o impedimento artificial da presidenta.

Vimos a ministra da agricultura jogar vinho na cara de um senador por chamá-la de “namoradeira”, (hahaha) vimos e lemos, em meio a risos de vergonha alheia (HAHAHAHAHA), a patética carta intencionalmente vazada do vice presidente da república para a presidenta, queixando-se de sentir-se deixado de lado e de ser (sic) “um vice decorativo”. E vimos este mesmo vice conspirar para derrubar a mesmíssima presidenta com a qual foi eleito, em uma mesma chapa, há menos de dois anos.

Vimos as instituições do Estado unirem-se em conspiração para produzir uma crise institucional e política e viabilizar um impeachment, outrossim, inviável. Assim é que, testemunhamos o Tribunal de Contas da União, mudar sua jurisprudência da noite para o dia, e recomendar a rejeição das contas da presidência da república, por se utilizar dos mesmos métodos de contabilidade criativa que virtualmente todos os presidentes até aqui utilizaram e que diversos governadores em exercício utilizam e, provavelmente continuarão utilizando.

Será difícil esquecer da sensação que experimentei na quarta feira, 16 de março, quando apenas no espaço de meia hora de metrô até a minha casa, em Brasília, descobri, ao chegar, que a presidenta Dilma havia nomeado o ex-presidente Lula como Ministro Chefe da Casa Civil, o juiz Sérgio Moro havia ilegalmente liberado os áudios das conversas entre Dilma e Lula,  interceptadas de maneira apenas parcialmente legal, e que, inflamados pelo conteúdo dos áudios liberados, dezenas de pessoas já se reuniam em frente ao Palácio do Planalto para protestar contra a nomeação.

Mas o pior de tudo, foi assistir ao espetáculo de horror em que consistiu a votação da admissibilidade do processo de impeachment da presidenta Dilma na Câmara dos Deputados. Houve de tudo. Houve deputado votando em nome de Deus, de sua família, houve deputado que levou filho, e deputado que queria colocar o filho para proferir o seu voto via telefone. E houve a deputada, que a essa altura, já entrou para o anais da história, e que votou em nome de Deus e contra a corrupção, exaltando o marido como um exemplo de gestão, só para ver o mesmo marido sendo preso na manhã seguinte por…corrupção. Aliás,  o que não faltou foi deputado réu por corrupção, incluindo o presidente da Casa e condutor do processo, Eduardo Cunha, julgando a admissibilidade de um processo contra uma presidenta contra quem não pesa nenhuma acusação de corrupção.

Aliás, Eduardo Cunha é um romance de realismo fantástico a parte, que merecerá um texto só para si.

Essas são algumas das coisas que tem me chocado. E, no entanto,  rupturas democráticas nessas proporções não se fazem do dia para a noite. Estava eu, portanto, redondamente enganado em acreditar na solidez de nossa democracia. Eu engoli o engodo do pacto feito por Lula com as elites e com a direita, no qual, eu acho até que ele mesmo acreditava. Mas a verdade é que: não há nada de novo sob o sol. Assim como na independência do Brasil, assim como na proclamação da República, assim como no golpe de 1964, e como na eleição de Fernando Collor de Melo as elites brasileiras jamais aceitarão o fim de privilégios e a ruptura de seu macabro vínculo patrimonialista com o mesmo Estado que, agora, acusam de ser muito grande, porque se voltou um tantinho mais para os pobres e as minorias nos dez primeiros anos do governo do PT. Essa elite não havia sido colocada em seu lugar, essa elite não estava  experimentando a livre concorrência de um mercado livre, essa elite  permaneceu incluída  no pacto parasita com Estado o tempo todo, pacto no qual o PT não ousou mexer. Estava adormecida, temporariamente satisfeita com a postura meio acovardada e boa-praça dos governos petistas. Mas essa elite agora quer mais. E o PT já não basta. Eu deveria saber.

Chegamos então ao ponto em que eu queria chegar. Se sempre houve neste nosso país, esse bizarro pacto patrimonialista das elites com as instituições do Estado, se a corrupção sempre foi o modus operandi da coisa pública no Brasil, se sempre fomos um país extremamente desigual, elitista, provinciano, machista, homofóbico, racista, o que mudou, e ainda assim essas não são as palavras de ordem nos cartazes dos teus protestos, o que mudou para que você esteja tão indignado?

Olha, o que eu notei de diferente nos últimos tempos foi que, agora, eu tenho pegar o mesmo avião que a Nalva, a diarista (maravilhosa) aqui de casa pega pra visitar a família dela em nosso estado de origem, o Maranhão. Mudou que o filho do porteiro do meu prédio está estudando na mesma universidade particular que você se orgulha de pagar para o seu. Mudou que as bichas, as sapatões e as travestis estão andando de mãos dadas na rua e, olha que absurdo, demonstrando afeto em público e em plena luz do dia! Essas coisas mudaram. Mas será que é isso que te incomoda tanto? Eu queria crer que não. E, olha, que mudou pouco. Muito pouco. E olha, que os governos do PT foram uma decepção em muitas frentes. Olha, que a Katia Abreu foi ministra da agricultura no governo Dilma. Olha, que o dinheiro investido em universidades particulares, poderia muito bem ter sido utilizado para expandir e melhorar a universidade pública no Brasil. Olha, que o Brasil é o campeão mundial de assassinatos por homolesbotransfobia. Olha que a pobreza ainda está longe de ser erradicada. Olha, que juventude negra ainda está sendo exterminada nos morros. Olha, que em 2016 a gente ainda tem deputado no congresso, justificando voto em nome de sua família, de Deus, e homenageando torturadores condenados pela justiça, muito por causa do pacto de hipocrisia costurado pelo PT nesses 13 anos, firmado em nome de uma governabilidade de que já não se vê nem a sombra. O Brasil mudou um pouquinho. Só um pouquinho. Mas mesmo esse pouco já deu conta de incomodar as elites a ponto de mobilizarem um novo golpe de Estado, amplamente denunciado pela opinião pública mundial.

E sabe o que mudou, também? A narrativa. Temos, agora, as grandes empresas de comunicação empenhadas em contar essa fábula, que lhe autoriza a culpar Dilma, Lula e o PT por absolutamente todos os seus problemas. Que coisa maravilhosa, não é? Que presente! Ser-lhe dado assim um agente externo no qual depositar toda a culpa por suas falhas, equívocos, por tudo o que você devia ou queria ter feito e não fez. Nunca me esqueço de como você chegou ao absurdo de me dizer que, não fosse pela Dilma, você já estaria morando no Canadá e sendo feliz. Fica fácil entender porque você perde o controle sempre que confrontado a respeito deste seu maniqueísmo. Neste conto fantástico segundo o qual tudo o que há de ruim em sua vida tem, no Partido dos Trabalhadores, o seu único culpado, desconstruir o impeachment como taba de salvação, significa privá-lo da solução mágica, fácil e rápida que você enxerga nele para todos os seus problemas.

Então, meus queridos, vamos resolver aqui e agora este impasse. Está claro que o Brasil, esse nosso “gigante latino-americano” sempre foi um lugar fabuloso, pro bem e pro mal. Está claro que grande parte do que mudou nos governos do PT, mudou pra melhor. O que tem de ruim ou de pior, ou não passou de uma lamentável e imperdoável continuidade de um pacto pentacentenário de hipocrisia entre elites e Estado, endossado pelo governo petista, ou não está a vista em nenhum dos cartazes dos seus protestos. Alguém aí viu, nas manifestações pró-impeachment, cartaz contra a bancada ruralista e os atrozes retrocessos experimentados no meio ambiente, como o bizarro novo Código Florestal, que protege MENOS do que o anterior, quando a situação das florestas é, hoje, MAIS grave do que nunca? Alguém viu cartazes perguntando onde está a reforma agrária?  Está claro que a presidenta Dilma está sendo julgada por réus de corrupção, sem que seja ela mesma ré. Está claro que o tipo penal do alegado crime de responsabilidade adquire interpretações diferentes, de acordo com quem esteja no poder. E que uma mesma conduta, dependendo do partido do governante, pode ou não, preencher o tipo penal em tela. Está claro que é Michel Temer e Eduardo Cunha que estarão a frente do país tão logo a presidenta seja impedida e está claro que, nenhuma das profundas reformas no sistema político, tributário, previdenciário, judicial, nos meios de comunicação, que o PT falhou miseravelmente em empreender e que, poderia ter, enfim, dissolvido o sequestro do Estado pelas elites de maneira permanente, está nas prioridades de quem capitaneia o golpe em curso. Aliás, está claro, que eu nem precisaria me dar ao trabalho de falar sobre a ilegitimidade do embasamento jurídico do processo de impeachment porque a denúncia sequer foi usada pelos deputados para justificar os votos. Então, eu pergunto: você quer impeachment para quê?

Se você pretende ver pobre fora das universidades e dos aeroportos e o fundamentalismo religioso dominar o Estado, sem os (precários) freios que ainda o seguravam, você está certíssimo. Esse é o seu lado. E aí nosso problema acabou porque eu finalmente entendi o que você quer. Agora, se o que você quer, é que o Brasil se torne um país para ser levado a sério, que tal, a despeito de partidarismos, torcer a favor da solidez democrática e das instituições do Estado. Que tal aguentarmos o governo ruim, porém legitimamente eleito da Dilma até 2018 e, quem sabe, nas próximas eleições a gente não leve, mais uma vez, PT e PSDB para o segundo turno. Olhe ao seu redor no time do impeachment e verá Eduardo Cunha, Jair Bolsonaro, Michel Temer, Janaína Paschoal, Aécio Neves, Tiririca, Lobão, Olavo de Carvalho, todos muito mais facilmente visualizáveis na fabulosa Macondo de Gabriel Garcia Marquez do que na vida real. Todos lembrando-nos diuturnamente que aqui na nossa querida América Latina, aqui no nosso Brasil, estamos habituados a que o realismo fantástico seja mais do que gênero literário. O realismo fantástico é o nosso cotidiano, é a matéria do nosso jornal. É o nó da nossa solidão.

Lady Gaga, a performatividade de gênero e o feminismo a serviço do fim da cultura do estupro.

“Promete que nunca voltaremos?”, indaga Beyoncé.

“Eu prometo”, responde uma Gaga resoluta da promessa que faz.

É assim que termina o videoclipe de “Telephone”, o icônico single de Lady Gaga em parceria com Beyoncé, lançado há mais de 6 anos e que, até hoje, permanece como a mais bem sucedida parceria musical inteiramente feminina da música pop. O clipe, dirigido pelo badalado Jonas Akerlund, é repleto de referências ao cinema de Quentin Tarantino. Desde as cores em tons fortes e primários, até a violência, intencionalmente exagerada, e as atuações deliciosa e propositadamente canastronas, tudo no vídeo referencia, sem meios termos, o trabalho do diretor de “Kill Bill”e “Os Oito Odiados”. E, uma vez tratando-se de um vídeo protagonizado não só por duas mulheres, mas possivelmente, pelas duas maiores forças da música pop atual, Lady Gaga e Beyoncé, a escolha pela referência a Tarantino não podia ser mais acertada. Explico: poucos diretores do cinema contemporâneo (ou clássico, aliás) possuem um histórico tão consistente de personagens femininas fortes, empoderadas e independentes quanto Tarantino. Mas a pergunta é: por que falar de uma música lançada há mais de 6 anos, quando Lady Gaga estava no auge inicial da carreira se de lá pra cá a própria cantora experimentou alguns consideráveis altos e baixos? Muito simples: porque nesta segunda metade de década em cujo terceiro mês acabamos de entrar, ao aproximar-se mais uma vez de uma nova era de dominância cultural sua, Lady Gaga e feminismo voltaram a se alinhar.

Pós-Feminismo e Desconstrução de Gênero

Em seus dois primeiros álbuns de estúdio a persona apresentada ao grande público por Stefani Germanotta, nome de batismo de Lady Gaga, apareceu em um cenário dominado por estrelas do pop impecavelmente bonitas, bem vestidas, loiras, malhadas e, mais do que tudo, a serviço da demanda do desejo masculino. Em tal cenário, a estranheza, e os figurinos nonsense usados, por vezes, em detrimento de manter uma imagem associada ao padrão comercial da beleza foram recebidos como um sopro de frescor pela cultura pop, já saturada do estereótipo propagado por Britney Spears na década anterior.

Neste aspecto externo de sua eternamente mutante aparência, por vezes bizarra e raramente atraente, Lady Gaga – naquela altura um alter ego da mulher Stefani – , transformou-se na antítese daquilo que a sociedade sexista esperava de uma cantora pop, ou mesmo, de uma mulher: quando suas contemporâneas tornavam-se cada vez mais loiras, tradicionalmente bonitas, bem maquiadas, bem vestidas e sensuais, Lady Gaga tornava-se progressivamente mais esquisita e andrógina. Quem não lembra de Jo Calderone, o alter ego masculino assumido por Stefani para a divulgação do single “You and I” ou do rumor, ao qual a própria não moveu grandes esforços para desmentir, de que Gaga seria hermafrodita? Sim, particularmente esse rumor denota, com precisão, o tamanho do incômodo que Lady Gaga intencionalmente representou para o machismo reinante na industria cultural. Como Marcia Tiburi, filósofa  e escritora brasileira, escreveu em seu texto brilhante de 2010 para a Revista Cult, sobre a cantora pop, Lady Gaga cometeu dois crimes imperdoáveis contra o machismo. No clipe de “Telephone”, Gaga e Beyoncé encaram dois personagens criminosos para o machismo: a lésbica, criminosa por configurar uma forma de existência que prescinde da presença masculina e a pin-up, que ameaça o homem por representar uma estética que o captura. E a respeito de sua carreira, de uma maneira geral, é possível dizer que a própria existência de Lady Gaga sempre foi um deboche ao desejo masculino de submissão das figuras femininas, aproximando-se, sempre que possível do bizarro, do esquisito, do andrógino, daquilo que, por fim, não excita o homem médio. Assim, parecia fazer sentido às massas que, alguém que não estivesse inteiramente dedicada a preencher as expectativas masculinas em termos de beleza, só podia mesmo não ser uma “mulher de verdade”.

Este é o ponto em que, possivelmente sem a intenção específica, Stefani ressona uma grande filósofa contemporânea, e sua conterrânea: Judith Butler. Butler, uma das maiores expoentes nas teorias de gênero, queer e feminista, paradoxalmente desponta justamente por sua crítica ao feminismo clássico através de uma ideia explosiva: a da performatividade do gênero. Assim, a filósofa, sem jamais deixar de lutar pelos direitos das mulheres, vai mais fundo e questiona o fato de o feminismo ainda trabalhar dentro dos limites do binarismo de gênero, isto é, com a ideia de que “homem” e “mulher”, “masculino” e “feminino” constituem a verdade da sexualidade humana. Para Butler, o binarismo constitui uma supressão às singularidades e potencialidades humanas que, frequentemente, não se encaixam nesta divisão limitada de homem e mulher e que terminam, por isso, sendo taxadas como inadequadas ou incorretas, gerando sofrimento e isolamento de todo tipo. Não se trata, necessariamente, de negar-se como homem ou mulher, trata-se de negar o que nos dizem que deve ser um homem ou uma mulher, trata-se de impedir que a carga simbólica atrelada historicamente às palavras “masculino” e “feminino” oprima as ricas singularidades humanas que nela não couberem. Butler denuncia os esteriótipos de gêneros, portanto, como meras performances, que somos obrigados a aprender com apresentar desde a mais tenra idade.

Similarmente, com sua persona camaleônica e metamórfica, e sua muitas performances, Lady Gaga subverte a estética daquilo que simbolicamente deveria vir com o título de “cantora pop” e, até mesmo, de “mulher” e tal qual Butler faz superando o paradigma feminista da guerra dos sexos, Gaga vai também além da crítica à mulher apática que morre por seu homem (e, por vezes, nas mãos dele) e inverte, de maneira irônica e debochada, a lógica simbólica que separa homens e mulheres. A saber, em “Paparazzi”, uma espécie de prequel do vídeo de “Telephone”, depois estar temporariamente inválida pela violência do amor-ódio que o homem misógino nutre pela mulher, Gaga retorna para vingar-se, assassinando aquele mesmo homem. A própria Marcia Tiburi, em seu texto sobre Lady Gaga acusa o lugar-comum que se tornou a estética da “mulher morta” na arte contemporânea, como um resgate daquela mesma mulher morta ideal do romantismo do século XVIII ressaltando, entretanto, que Gaga vai mais longe e mais corajosamente, do que muitos artistas renomados atuais ousaram ir. Sua mulher morta volta e se vinga e, mais, deixa de ser musa e torna-se o próprio eu-lirico de sua história, sua própria protagonista.

Assim como Butler, a mulher Stefani, rebelou-se contra o que estava posto e recusou-se a, servir à imagem de estrela pop demandado pela lascívia masculina opressora sobre os corpos das mulheres. Este foi, por fim, o crime de Lady Gaga. E engana-se quem pensa que ela saiu impune. Em algum momento da era “Born This Way”, em parte porque sua estética hipercomposta estava saturada, em outra porque a maioria das pessoas reagia de maneira irrefletida sobre o trabalho da cantora, já muito complexo para o formato de produto de massas, o grande público pareceu perder muito do seu interesse inicial em Lady Gaga. Mas não se engane: a partir de então era frequente ouvir comentários maldosos do tipo “a Lady Gaga, na verdade, não é bonita”,  naquele tom presunçoso de que tem uma sacada genial, de quem é “diferentão”. Este frequente comentário me chamou atenção na época por dois motivos: 1)  o fato de que o interlocutor achar que Lady Gaga “falhou” em ser bonita parece pressupor que ela estava “tentando” sê-lo,  deixando claro que a submissão ao padrão midiático de beleza é tão avassaladora que leva indivíduos a crerem que, obviamente, qualquer pessoa que puder ser loira, magra, fitness e bem vestida não exitará em sê-lo, e se não o é, só pode ser porque não tem capacidade para. A verdade, não poderia ser mais diferente: nem Lady Gaga estava tentando encaixar-se no padrão, nem este padrão é algo assim tão impossível – de tão superficial e plástico, com poucos aparatos monta-se a performance da mulher padrão sensual (veja aqui a questão a performatividade), e nem este padrão é a real forma de beleza; e 2) o fato de as pessoas parecerem não perceber a contradição em termos que é a sua recusa em apreciar um trabalho artístico por que o seu autor não é “bonito”. Algo como deixar de ver os filmes de Tarantino, porque ele tem uma barriguinha saliente.

De volta à dominação cultural

De qualquer maneira, o fato é que, confrontada com a clara rejeição do grande público a seu trabalho no quarto disco de estúdio, ARTPOP, cujas vendas, ainda que razoáveis, passaram longe dos padrões astronômicos a que ficamos habituados quando se trata dos trabalhos de Lady Gaga, a cantora mais uma vez subverteu aquilo que se espera simbolicamente de alguém denominada de “estrela do pop” e, ao invés de ceder a pressão para tornar-se mais “bonita”, loira, e fazer músicas mais simplórias e comerciais, a cantora tomou um rumo tão inesperado quanto genial: gravou um disco de clássicos do jazz com Tony Bennett. A decisão mostrou-se extremamente acertada, tanto servindo para lembrar a todos da imensa potência vocal de Stefani, e elevar sua credibilidade enquanto musicista (afinal, quantas cantoras do pop atual vocês acham que dariam conta de um álbum e uma turnê ao lado de Tony fucking Bennett ?) quanto para descansar sua imagem que, após cinco anos de superexposição já andava bastante saturada. Fora isso, o projeto foi um sucesso, rendendo a Lady Gaga e Tony Bennett a posição número 1 na principal parada de álbuns da Billboard e um Grammy por “Melhor álbum de pop tradicional”. A turnê, por sua vez, foi extremamente lucrativa, tanto financeiramente, quanto em termos da reputação que ajudou Gaga a construir com uma audiência que não era a sua típica.

Hoje, Lady Gaga prepara o terreno para o seu retorno à dominação cultural. Recém saída de uma bem sucedida temporada como protagonista de uma série de TV, pela qual ganhou o Globo de Ouro de melhor atriz, e de uma indicação ao Oscar de melhor canção original, que perdeu criminosamente para a fraquíssima música tema de Sam Smith para o mais recente filme do James Bond, a cantora parece ter recuperado as boas graças do grande público pelo seu trabalho. E, mais uma vez, ao fazê-lo, Lady Gaga faz questão de cruzar o seu caminho com o da agenda feminista. A música indicada ao Oscar, co-escrita por Lady Gaga, em parceria com a legendária compositora Diane Warren, foi feita para o documentário “The Hunting Ground”, que denuncia a epidemia de estupros nas universidades americanas, como resultado da cultura de abuso sexual em que vivemos. E, tanto na letra da música, quanto em sua poderosa apresentação na cerimônia de entrega dos prêmios da academia, na qual, a cantora, mostrando-se delicada e consciente, levou 50 vítimas de abuso sexual com ela para o palco, Gaga mostrou-se mais real e mais vulnerável do que nunca. É que o tema lhe toca fundo: Stefani revelou há dois anos ter sido ela própria uma vítima de violência sexual aos 19 anos, tendo utilizado, desde então, sua proximidade com o tema para reforçar a mudança de paradigma que se tenta operar.

Se antes, seu ativismo rebelava-se contra a opressão simbólica do patriarcado e da cultura do abuso sexual sobre seu corpo, agora Lady Gaga foca na opressão física e material que a violência sexual opõe a mulheres e homens mundo a fora. Gaga tem ativamente apoiado, por exemplo, a colega Kesha, em seu processo contra o produtor Dr. Luke, acusado de anos de abusos sexual, moral e verbal contra ela, e pelo que ela pede a anulação do contrato que a obriga a somente produzir música sob o selo dele. Note-se: o processo em tela não é nem sequer a respeito de uma condenação criminal do produtor, mas tão somente a respeito do direito de uma mulher de poder produzir o seu sustento longe do homem que a abusou sexualmente.

Afeições pela agenda feminista a parte, é verdade que, esta aqui já não é mais a mesma Lady Gaga de 2010. Não. Nesta encarnação, eu suspeito que Lady Gaga está interpretando um personagem muito próximo da pessoa que é Stefani Germanotta, como se o personagem interpretasse seu criador. As dores de Stefani são agora apresentadas enquanto tais, e não mais na forma lúdica do espetáculo de Gaga. Tudo indica, porém, que, seja Stefani ou Gaga, a cantora encaminha-se mais uma vez para uma era de dominação cultural. Em um começo de ano tumultuado por lançamentos de gigantes da música pop, do calibre de Rihanna e Beyoncé, Lady Gaga, mesmo ainda sem nenhum álbum novo, tem mantido-se a como um dos tópicos mais comentados de cada semana e, recentemente, tornou-se a primeira artista a apresentar-se no SuperBowl, Grammy e Oscar no mesmo ano. Paradoxalmente, sua amplamente inesperada derrota no Oscar neste ano, parece ter-lhe servido melhor ao propósito de reconquistar o grande público do que uma vitória previsível. Como há muito tempo não se via, o grande público, e não os seus fãs, foi em massa às redes sociais em defesa da cantora, afirmando injusta a vitória de Sam Smith, que, para o rapaz pareceu estranhamente ter gerado uma reação
geral de enfado por parte da audiência global do Oscar.

As expectativas são altas para esta nova era. Suspeito que, seja qual for a encarnação de Gaga desta vez, ela será inesperada e, novamente, um exercício de inconformação com esteriótipos e cargas simbólicas. Confesso ter até me permitido imaginar a prometida continuação de “Telephone” com Beyoncé e Lady Gaga resgatando Kesha no Tribunal e este sendo explodido a medida que elas escapam em câmera lenta, no melhor estilo “Django Livre”. Seja como for, as muitas performances de Lady Gaga, já possuem um inestimável valor para a cultura pop, por subverterem os estereótipos de gênero a que estamos acostumados a tentar nos adequar. Longe de demonstrarem inconsistência ou indecisão, as performances simplesmente denunciam os papéis sociais nos quais tentam nos imprimir, exatamente como aquilo que são: meras performances. E, como tais, e tal qual o faz Lady Gaga, você pode sentir-se livre para criar aquela que você bem entender. Depois de um ano de 2015 apático e genérico para a música pop, e apesar da promessa feita por Lady Gaga no fim do vídeo de “Telephone”, 2016 parece prometer, graças a Deus, o retorno das duas e quem sabe elas tragam sua dupla de criminosas para assassinar (simbolicamente, risos) de vez o patriarcado.

 

Grammys, Taylor Swift e Feminismo Branco: uma manchete monocromática

Na noite de ontem aconteceu o evento que se autodefine como o maior palco da música (só posso crer que, quando dizem isso, pretendem referir-se à música estadunidense, assim como quando os norte-americanos utilizam o nome do continente americano inteiro para referirem-se apenas ao seu próprio país). A grande vencedora da noite não chega a ser uma surpresa. Foi Taylor Swift, pelo seu primeiro álbum completamente pop, que passou uma boa parte do ano passado quebrando recordes de vendas e figurando nos topos das paradas de álbuns e de singles.

Antes de continuar a falar sobre o prêmio de Taylor, é importante ressaltar: eu adoro 1989, o último álbum da Taylor. E, em geral, gosto muito do trabalho dela. Se a considero uma vocalista apenas mediana, creio que ela compensa com uma habilidade enorme de contar estórias bonitas nas músicas que escreve, com cujas letras é sempre possível relacionar sua própria vida. E, mais do que tudo: ela é uma mulher de negócios nata.

Dito isto, é preciso ser franco: a vitória dela me foi amarga. Taylor concorria com os álbuns de Kendrick Lamar, Alabama Shakes, The Weeknd e Chris Stapleton. Embora goste bastante de 1989, o álbum vencedor de Taylor, e o considere um álbum consistente e bem produzido, e embora ele tenha fugido da sonoridade gasta e genérica que vinha sendo utilizada pelos últimos lançamentos pop (cof cof, Fifth Harmony, Ariana Grande, cof cof), a verdade é que, qualquer um dos outros álbuns na categoria (a exceção, talvez, de Chris Stapleton, cujo álbum não tive a oportunidade de ouvir para saber) eram-lhe álbuns artisticamente, ainda que não em popularidade, superiores.

Mas, sobretudo, eu sinto a necessidade de falar do álbum de Kendrick Lamar. Kendrick vem de Compton, berço do rap americano e cenário da imensa desigualdade entre brancos e negros nos Estados Unidos, como também no Brasil. A mesma Compton a inspirar o brilhante filme “Straight Outta Compton”, criminosamente ignorado pelas indicações do Oscar 2016.  Porém, mais do que isso – e a performance de Kendrick no Grammy, na noite passada, é prova cabal disto – Kendrick com seu álbum “To Pimp a Butterfly”, não apenas aborda de maneira liricamente brilhante os graves problemas políticos e sociais enfrentados pela população negra nos EUA, como, artística e musicalmente o álbum é diferente de qualquer álbum de rap que você já tenha visto, cheio que influências musicais negras, principalmente jazz. Kendrick tem redefinido o que significa ser um rapper, bem como, extrapolado os limites criativos possíveis para o seguimento. Em uma época na qual o rap tornou-se mainstream e, por isso, mais bem comportado e menos incômodo, Lamar traz de volta o engajamento, a dor de crescer sob a vigilância racista em Compton e desigualdade.

Em uma semana sufocada pela empáfia (já beirando a esquizofrenia) de Kanye West, na qual, entre ofensas misóginas e gratuitas a Taylor Swift e incompreensíveis pedidos de doações ao dono do Facebook, West nos prometeu não apenas o álbum da década, mas o álbum da vida, li ontem o mais certeiro tweet que já vi em muito tempo: É Kendrick Lamar  que está, na verdade, fazendo o que o Kanye West pensa estar fazendo. É Kendrick Lamar quem realizou com seu álbum mais recente, concorrente na categoria de Taylor a álbum do ano, um dos álbuns mais relevantes e importantes da década. E é ele quem teria recebido o meu voto, caso o Grammy desse a mínima para a minha opinião (risos).

Mas agora precisamos falar sobre Taylor. É inspirador, sim, ver uma mulher de apenas 26 anos que já construiu um império e uma marca global, que é uma mulher de negócios bem sucedida e que não tem vergonha de sê-lo, e que sente-se confortável sendo a chefe. Principalmente, é inspirador vê-la, como ela própria destacou em seu discurso de aceitação (com direito a um merecido tapa de luva, não tão sutil assim, na péssima brincadeira de mal gosto de Kanye West, onde ele a chama de “bitch”, e se auto confere o crédito pela fama da cantora, após o episódio do VMA de 2008), tornar-se a primeira mulher a ganhar o prêmio de álbum do ano duas vezes nesta década. Isso é tudo ótimo.

Mas aí a Taylor começa a falar sobre feminismo o meu principal problema com ela vem à tona: aquilo que ela chama de feminismo. Desde o lançamento deste seu trabalho mais recente Taylor tem, com uma consistente frequência, pressionado a tecla do feminismo, sempre que precisa justificar ou referir-se a algo relacionado a suas decisões corporativas, a sua vida afetiva, e a intensa amizade com seu grupo de amigas. O problema, entretanto, é que, em um mundo onde mulheres negras, cis e trans, lutam para sequer conseguirem um emprego, onde meninas nigerianas tem sido sequestradas, impedidas de estudar e transformadas em escravas sexuais pelos fundamentalistas do Boko Haram, onde os Estados Unidos vive uma epidemia de casos de violência sexual cometida contra mulheres, onde os as mulheres indígenas remanescentes do continente americano permanecem mergulhadas em miséria e extermínio físico e cultural, neste mundo em que vivemos, não posso deixar de notar que o feminismo de Taylor soa por demais branco, rico e célebre.

Um exemplo didático foi a rixa criada entre Taylor e Nicki Minaj, quando a rapper denunciou a ausência de indicados negros da principal categoria dos Video Music Awards da MTV, a de vídeo do ano. Taylor, que estava indicada na categoria, como a menina, branca e privilegiada que é, pareceu pensar que todo o episódio que, até ali, era sobre racismo em premiações musicais, era na verdade a respeito dela (quem pode culpá-la, afinal, tudo não é mesmo sempre sobre a sociedade branca?). Via twitter, a cantora de “Blank Space” repreendeu Nicki Minaj por tê-la “traído” quando tudo o sempre havia feito era ser uma boa amiga para Nicki. As semelhanças com uma sinhazinha falando com a mucama coadjuvante com quem “ousa” manter uma relação de (quase) amizade, são mera coincidência (eu acho).

Não é de hoje que Taylor vem, consistentemente, tornando-se uma expoente, provavelmente não intencional, do feminismo branco. Importa ressaltar que “Feminismo Branco” não é uma expressão para descrever mulheres feministas que, porventura, sejam brancas. Nem todas a feministas de pele branca praticam o “feminismo branco”. A expressão visa designar a tendência de mulheres feministas brancas em apenas identificar-se com a luta contra o patriarcado, achando que essa é a única experiência de opressão que qualquer mulher sofre e ignorando a opressão que o racismo adiciona ao fardo carregado por mulheres de outras etnias. O Feminismo Branco, é incapaz de perceber que, embora sofra com a opressão de gênero, quando se trata de raça, desfruta da outra ponta da faca: a  opressão imposta pelo privilégio branco às mulheres brancas, indígenas, latinas, etc.. Falta-lhe, portanto, interseccionalidade.

Todo o discurso da cantora a respeito de feminismo tem girado em torno, por um lado, do quanto ela, uma das cantoras mais ricas, entre as cantoras ricas da música pop, recebe pelos royalties de sua música e, por outro, na “irmandade” que garante uma sólida união entre ela e seu grupo de melhores amigas, contra a opressão masculina e o machismo. Entretanto, uma olhada superficial no grupo de amigas de Taylor é suficiente para entender que sua amizade frequentemente se estende a um grupo exclusivo de meninas à sua própria imagem e semelhança: brancas, magras, ricas, bem sucedidas e famosas. E a pouca diversidade notada no grupo, termina por soar artificial e por guardar certo tom de ação afirmativa, no melhor estilo “eu não sou racista, até tenho uma amiga negra” que, no caso, chama-se Zendaya (embora aparições públicas das duas não sejam muito frequentes, quando não relacionadas ao videoclipe de “Bad Blood”).

Some-se a isso, a imensa insensibilidade cultural com que a cantora tende a tratar outras culturas nos seus videoclipes mais recentes e fica claro a dificuldade de compreensão de realidades diferentes da dela. Por exemplo, em “Shake It Off”, Taylor brinca com os estereótipos hiper sexualizados das mulheres negras, sem contudo negá-los ao final, colocando-se de certa forma em um patamar acima por não precisar encaixar-se neles. Em “Wildest Dreams” Taylor trata todo o continente Africano como um grande esterótipo de um país exótico, onde só existem animais e savanas, basicamente contando a estória da colonização africana pelos olhos do colonizador branco.

Fica, portanto, a sensação que, sempre que Taylor posiciona-se de forma minimamente política, trata-se invariavelmente de alguma posição diretamente relacionada a algum benefício próprio. E é importante que se ressalte: opor-se ao feminismo branco, não significa opor-se ao direito das mulheres de militarem em causa própria, só significa que enquanto o feminismo como um todo, não se ativer às diferentes experiências de opressão que mulheres de diferentes etnias, classes sociais, orientações sexuais e identidades de gênero sofrem, ele permanecerá divido e enfraquecido. Não é Minaj, com seu protesto quem está tentando dividir o feminismo entre brancas e negras, é antes mulheres como Taylor, que se recusam a entender que, embora sofram opressão, são também privilegiadas, que o fazem, ao ignorarem as experiências opressoras que não conseguem reconhecer porque não as sofrem na pele.

Taylor não está sozinha, porém, quando se fala de artistas com dificuldades em aceitar a existência de formas de opressão não sofridas por eles. Há menos de uma semana, Meryl Streep (sim, a própria, divinamente talentosa) disparou também uma pérola de insensibilidade. Meryl presidia o júri do Festival Berlinale de Cinema e, durante um painel, foi questionada por um jornalista a respeito da ausência de diversidade no júri, composto exclusivamente de profissionais brancos e europeus. Meryl respondeu de maneira lamentavelmente evasiva e insensível. Respondeu que embora ela não conhecesse muitas das culturas abordadas pelos filmes que ela deveria avaliar, havia um núcleo de humanidade que perpassava todas as culturas e (pasmem) concluiu dizendo “afinal, somos todos africanos, não é mesmo?”.

Não, Meryl, não somos. Esse tipo de resposta fácil e aparentemente unificadora das culturas sob o pretexto de que todos somos humanos é, na verdade, perversa, porque se traveste como algo benéfico, e unificante, quando o que faz é, na verdade, silenciar as diferenças gritantes e as opressões barbaras sofridas por quem é realmente africano. Uma das atrizes mais bem sucedidas da história cinema, Meryl Streep é branca, americana e rica, de maneira que, ao dizer que é também africana, simplesmente neutraliza toda a luta e a dor de quem é realmente africano e sente na pele a miséria, a fome, as doenças, a ausência de Estado e políticas públicas mínimas e violência brutal que assolam o continente desde o início do colonialismo europeu até os dias de hoje, e parece ignorar que essa dimensão social do mundo em que vivemos é determinante para a construção ou desconstrução da subjetividade que ela tanto preza nos seres humanos. Similarmente, outra atriz talentosíssima, Charlotte Rampling, quando manifestava-se a respeito da polêmica envolvendo a ausência de indicados negros ao Oscar, mesmo de diante de tantas performances memoráveis por negros neste ano, emitiu um comentário de insensibilidade ainda mais assombrosa: disse que o boicote promovido por atores negros à cerimônia consistiria em racismo inverso contra os brancos. O que quer que isso signifique.

O que é mais engraçado em comentários como esses é que, ao posicionarem-se contra os protestos pela diversidade nas artes, os atores que o fazem demonstram não só não terem entendido a questão, como terminam por provar que o argumento dos protestos está correto. A questão não é nomear artistas simplesmente porque são negros, ou indígenas, ou árabes. A questão é que júris majoritariamente brancos, heterossexuais, cis, e economicamente abastados, têm se mostrado sistematicamente insensíveis ao impacto da luta de outras etnias, orientações sexuais, identidades de gênero e classes sociais nas subjetividades dos trabalhos artísticos realizados, pelo simples fato de que não sentem a opressão na pele e não conseguem identificar-se com ela. Mais do que isso: não querem fazê-lo, porque é mais fácil acreditar em mundo no qual o talento é a única variável. Mas não já está claro o quão danoso é não denunciarmos nossos próprios privilégios? Não é preciso protagonizar a luta alheia para fazê-lo.

No Grammy, Kendrick praticamente apenas ganhou as categorias nas quais concorria com outros competidores negros, perdendo quase sempre que havia algum branco no páreo. E, na categoria principal, a despeito da obra prima em que consiste “To Pimp a Butterfly”, Kendrick perdeu justamente para Taylor, em cujo videoclipe faz uma participação a despeito da aparente incapacidade de Taylor de compreender a necessidade de interseccionalidade no feminismo, esta última, uma palavra a que ela tanto se afeiçoou nos últimos tempos, sem entender-lhe completamente a extensão. Não que o álbum de Taylor não seja bom. Já houve injustiças muito maiores em termos de Grammy. Mas é impossível desvencilhar-se da sensação de que um álbum artisticamente brilhante e politicamente revolucionário, por um rapper negro, e ainda, o álbum genial do Alabama Shakes, com sua linda, gorda e estupenda vocalista Brittany Howard, perderam o Grammy de melhor álbum para um que fala sobre ser branco, rico e magro em Nova York, com amigos igualmente brancos e ricos, e sobre ter desilusões amorosas (invariavelmente com pessoas brancas, altas, ricas, heterossexuais e cis). É como se o privilégio branco, heterossexual – e cis –  tivesse vencido, mais uma vez, o Grammy de melhor álbum do ano.

“Formation”: o racismo descobriu que Beyoncé é negra e não vai perdoá-la por isso.

Chegou até mim nos últimos dias, provavelmente por ocasião de toda a animosidade gerada nos EUA pelo novo vídeo clipe da Beyoncé, uma entrevista concedida décadas atrás por Nina Simone, aparentemente durante o auge de seu estrelato. Tão logo comecei a vê-lo, percebi que o vídeo me era familiar, afinal, havia sido colocado no excelente documentário da Netflix sobre a cantora, “What happened, Miss Simone?”, lançado no ano passado. Ainda assim, achei por bem vê-lo até o fim uma segunda vez, notando desde o começo que assisti-lo novamente seria uma experiência tão mesmerizante quanto a primeira vez que o vi. Tudo naquele vídeo emana poder e altivez. Nina, a cada sílaba que pronuncia, revela a divindade e absoluta força da natureza que é, exaltando, sem medo, o orgulho que sente de ser uma mulher negra e da cultura de seu povo. No vídeo, corrigindo a pergunta vacilante e temerosa do repórter, Nina retruca sem meias palavras: “Acho que o que você está querendo perguntar é o porquê de minha insistência em mostrar a eles [jovens negros] essa negritude, esse poder negro, levando-os a se identificarem com a cultura negra”. Sem esperar que o repórter confirmasse, Nina responde a pergunta que ela mesma formulou: “É que, em primeiro lugar, eu não tenho escolha: para mim, nós [mulheres e homens negros] somos as mais belas criaturas no mundo inteiro, e eu digo isso em todos os sentidos, por dentro e por fora, e nós temos uma civilização que não é superada por nenhuma outra civilização da história, por isso o meu trabalho e fazê-los curiosos e conscientes de quem eles são e de onde vieram”. Amém.

A despeito de também ser uma das maiores cantoras  do século XX, bem como, uma prodigiosa pianista, Nina tornou-se célebre por seu ativismo na luta contra o racismo e pelos direitos civis da comunidade negra americana no auge das, claramente ainda hoje vivas, tensões raciais por que o país passava nos meados de 1950 e 1960. Não por coincidência, foi após o despertar de Nina para a luta militante e o vigoroso impacto de tal luta no trabalho da cantora, que sua carreira enquanto estrela da música popular americana começou um rápido declínio, impulsionado pela perda do interesse do grande público branco na música feita por Nina, na mesma proporção em que seu trabalho passava a refletir mais e mais sua militância e politização. Soa familiar?

No Brasil, uma estória que ressona de maneira análoga tem permeado o imaginário popular por pelo menos um século e meio. Lançado na segunda metade do século XIX, por Bernardo Guimarães, o romance “A Escrava Isaura” aborda a temática do racismo ainda na sociedade pré-abolição da escravatura e conta a história da escrava mestiça Isaura, cuja pele branca, embora fosse filha de escrava, a fez cair nas graças de sua senhora, que a criou como membra da família, dando-lhe educação e cultura. Isaura vive como uma mulher branca, bem-educada e comportada durante toda a sua vida, com promessas de, um dia, receber sua alforria, até que sua senhora morre antes de poder cumprir a promessa, e os homens da família deixam claro não terem a menor intenção de conceder-lhe o mesmo tratamento que a finada senhora. A transição que ocorre, inevitavelmente, dá ao leitor a sensação de que, pela primeira vez, Isaura está sentindo na pele branca o total peso de sua negritude interior herdada da mãe escrava. É só a partir da morte de sua senhora e protetora, e do consequente início de sua penúria, que Isaura torna-se e sente na pele verdadeiramente o que é ser uma mulher negra.

Ora, Nina, apesar de sua tez negra, também logrou êxito em cair nas graças da sociedade branca, enquanto se absteve de abraçar sua negritude. Enquanto sua música manteve-se alienada de qualquer conteúdo político, bem como, devidamente palatável para os homens e mulheres brancos da época, ela cresceu vertiginosamente em popularidade e alcançou o status de maior entertainer de sua época. Assim como, hoje em dia, todos estavam muito satisfeitos em dançar alegremente ao som dos grandes hits divertidos que Beyoncé lançou para as pistas de dança. Vide Single Ladies, Partition, Crazy in Love, etc. O que acontece no presente momento com Beyoncé, e que já havia acontecido antes com inúmeros outros artistas negros, a exemplo de Nina Simone, é uma estória velha como a da escrava Isaura. É a estória da sociedade eurocêntrica e racista em que vivemos, na qual um homem ou uma mulher negros não podem abraçar sua negritude e sentir orgulho de serem quem são sem que a sociedade branca sinta-se ofendida.

Ao realizar um vídeo majestoso, cheio de iconografia exaltando a cultura negra e denunciando o racismo e o extermínio da juventude negra pela polícia americana, a exemplo do que ocorre também nas favelas brasileiras, Beyoncé não está de maneira alguma atacando a força policial estadunidense, como sugeriram alguns políticos e jornalistas conservadores. Beyoncé está, tão somente, abraçando a sua negritude e toda a beleza e dor que vêm com ela. Beyoncé está saindo do armário onde, talvez inadvertidamente, esteve colocada até agora, protegida pelo seu imenso sucesso financeiro e apelo universal de suas músicas. Beyoncé esteve esbranquiçada até aqui pelo seu privilégio, raro para uma mulher negra. E o que o racismo não consegue perdoar é o fato de que ela, agora, saiu do armário. Beyoncé revelou: é negra e ama sê-lo. Isso, o racismo não pode perdoar.

Em “Formation”, seu hino de exaltação à negritude, Beyoncé se orgulha de seu nariz largo, da linda e vasta cabeleira enrolada de sua adorável filha e recusa-se a suavizar o fato de que é negra, e que carrega orgulhosamente tudo o que vem com isso. Beyoncé, neste trabalho, divisor de águas em sua carreira, como Nina um dia fez, está simplesmente falando sobre o que é ser ser jovem, talentosa e negra. Está falando do sucesso e fortuna que vem com os dois primeiros, e do sofrimento, da escassez de oportunidades e da violência estrutural que vem com o último.

O repúdio de (parte) do público a esta nova fase da cantora é, em minha opinião, um sinal do sucesso da empreitada. Afinal, se não houver pessoas incomodadas é porque não se conseguiu meter o dedo na ferida. E, mais, se os incomodados são os conservadores e a elite branca, melhor ainda: Beyoncé acertou em cheio. Por isso, não acho que Beyoncé esteja particularmente surpresa com a animosidade gerada pelo seu novo trabalho. Ao abraçar sua negritude, pela primeira vez, assim, de maneira tão explícita, a diva sabia que, assim como Nina, e assim como as Isauras, no Brasil, ou nos EUA, no terceiro ou no primeiro mundo, a pele negra vem com um preço alto que o racismo impõe. A sorte, neste caso, é que Beyoncé uma negra deslumbrante, talentosa e multimilionária: ela tem crédito de sobra para pagar a conta dela e, se tudo der certo, das negras e dos negros que vierem depois.

 

REVIEW: “Os Oito Odiados” e o único vilão de Tarantino

Hannah Arendt, judia que era, ao manifestar-se a respeito do julgamento de oficiais nazistas, após o fim da Segunda Guerra Mundial, em sua polêmica obra “Eichmann em Jerusalém”, disse algo que, à época, considerou-se um ultraje, uma barbaridade, uma traição. Sobre Adolf Eichmann, o infame carrasco nazista, do qual esperava-se uma personalidade sádica, monstruosa e intimidante, à qual se pudesse odiar com a consciência tranquila, afirmou não passar de um homem normal, um funcionário público, um burocrata diligente no exercício de suas funções enquanto tal. Foi mais longe e, ali, nos anos imediatamente subsequentes à barbaridade de incalculável proporção do holocausto ousou conceder ao substantivo “Mal”, que àquela altura possuía rosto, nacionalidade, simbologia e bandeiras muitíssimo bem definidas perante a opinião pública, um adjetivo no mínimo anticlimático e, certamente, inesperado: banal. Com a expressão “A Banalidade do Mal”, Hannah incendiou a opinião pública da época, que tal qual a de hoje, cerca de setenta anos depois, permanece tão afeita a simplismos e a discursos literais, que não pôde compreender a que Hannah se referia.

Hannah não desdenhava do efeito avassalador do holocausto para o povo judeu e para o ocidente como um todo. Muito pelo contrário. Era justamente a grandiosidade do mal perpetrado pelo nazismo que a movia. É que para Hannah, antes de ser judia, seu compromisso maior era com seu papel de pensadora e seu dever, como tal, de compreender o tempo em que vivia. Por isso, ao falar da banalidade do mal, Hannah estava despida de sua herança judaica e investida em entender o sujeito e as decisões éticas que levaram Eichmann a cometer tantos atos de barbaridade. Hannah chamou, portanto, o mal de banal, não pelo efeito que provocou em suas vítimas, mas pelo efeito que provocava nos perpetradores. Ela pretendia explicar que os crimes cometidos por Eichman não consistiam em decisões deliberadamente malignas, mas tão somente em execuções de ordens superiores sobre as quais não havia muita reflexão, e pelas quais não se assumia a responsabilidade, tal qual uma engrenagem em uma máquina não pensa sobre o movimento que realiza como resultado da força aplicada sobre ela.

Ao publicizar a tese da banalidade do mal, Hannah expôs ao mundo uma faceta do mal com a qual as pessoas não estavam preparadas para lidar: a de que não é preciso ser uma pessoa deliberadamente maligna para se cometer atos de maldade. Tudo o que é preciso é abster-se de refletir sobre o impacto de suas ações nos outros e sobre a sua responsabilidade nisso tudo.

Embora tenha sido em “Bastardos Inglórios” que Tarantino abordou a temática do nazismo, é em “Os Oito Odiados” que o diretor conclui e, ao menos para mim, explica toda a banalidade com que ele tem tratado o mal em sua filmografia.

Explico. Dentre a corrente minoritária das pessoas que não apreciam o estilo Tarantino de dirigir, um argumento comum, especialmente nos últimos anos, nos quais Tarantino tem-se ocupado de escrever épicos de vingança a respeito de minorias oprimidas, tem sido o de que Tarantino, em todos os seus filmes, simplificou o mal de maneira maniqueísta e glorificou a vingança violenta como única resposta possível das minorias às maiorias opressoras. É com este entendimento que esta corrente minoritária propaga um discurso pseudopacifista. E estaria tudo muito bom, não fosse o fato de que Tarantino nunca disse em seus filmes que o mal era simples, que a vingança era boa e a única resposta possível à opressão das maiorias. Me parece que há, aqui, mais um caso clássico daqueles em que o expectador não entende a mensagem e, por isso, a simplifica da maneira mais superficial possível, já que é só até aí que consegue ir.

Se há uma característica pela qual os filmes de Tarantino não são conhecidos, é a sutileza. Tudo é propositalmente grande, exagerado, e canastrão. As lutas são tão sangrentas e desnecessariamente violentas que beiram e, por vezes de fato alcançam, o cômico, o ridículo. Ora, já não está claro? Não vou fingir que já vi todos os filmes da carreira de Tarantino, mas dentre os que vi, em todos o vilão é o mesmo. E, em todos, tal vilão é sistemática e intencionalmente ridicularizado ao ponto de transformar-se em entretenimento (da melhor qualidade, diga-se de passagem). O Vilão nos filmes de Tarantino é um só e não é nenhuma pessoa de carne e osso. O vilão é o ódio.

Em toda a sua filmografia Tarantino nada mais fez do que mostrar no que o ódio é capaz de transformar as pessoas. Seja o ódio dos homens misóginos contra as mulheres, que os torna violentos e assassinos, seja o que elas sentem de volta pela violência que sofreram. Seja o da elite branca da sociedade escravocrata contra os negros, ou o desejo de retribuição que nasce em Django uma vez liberto. Seja o dos nazistas contra os judeus, seja a retribuição dos Bastados Inglórios ao Terceiro Reich. O ódio é feio e torna as pessoas feias, tanto os que odeiam quanto os que recebem o ódio. O ódio aliena a condição humana, torna as pessoas isoladas em sua dor, incapazes de reconhecerem-se uns nos outros e incapazes de refletirem sobre a repercussão, no outro, daquilo que fazem. Em outras palavras o ódio banaliza o mal e torna as pessoas, as caricaturas de seres humanos de que Tarantino tão intencional quanto habilmente povoa suas histórias.

Não, queridos, Tarantino não glorifica o ódio vingativo. Ele o torna uma caricatura, ele o torna divertido, sem que para isso precise inverter os papéis e, assim, desembocar no tenebroso caminho da corrente minoritária a que há pouco aludimos: o de acusar o oprimido de violento justamente quando resolve rebelar-se contra sua opressão. É verdade que, em Taratino, não há linhas tênues. Sabe-se muito bem quem é oprimido e quem opressor. Mas nem por isso pode-se acusá-lo de maniqueísmo e “Os Oito Odiados” está aí para provar.

No ambiente claustrofóbico da cabana, que constitui o microcosmo no qual a parte decisiva do longa se passa, há tanto ódio e tanta desconfiança entre absolutamente todos ali presentes, que fica muito claro ser impossível separar os mocinhos dos vilões. Não, aqui não há maniqueísmos. O que fica bem claro, no entanto, são os papéis de oprimidos e de opressores, os quais, por diversas vezes, assim como na vida, são desempenhados pelas mesmas pessoas.

Naquele grupo, tão etnica e socialmente diverso quanto a própria formação demográfica americana, são todos opressores onde conseguem e todos oprimidos onde são vulneráveis. O personagem de Samuel L. Jackson, um raro homem negro ocupando posição de autoridade na época mantém-se cheio de um ódio inflamado contra a opressão branca, que o leva a cometer atrocidades ridiculamente gráficas como retribuição, especialmente diante de um velho soldado confederado, que por sua vez, representa a voz do racismo ao mesmo tempo que incorpora a vulnerabilidade da velhice perante a vitalidade de homens mais jovens e mais fortes. Jennifer Jason Leigh, estupenda no papel, espancada por mãos masculinas durante toda a projeção, não perde a oportunidade de destilar racismo contra o personagem de Jackson, ao mesmo tempo em que somos informados que Minnie, a falecida dona negra da estalagem onde a história se passa, possui um ódio mortal de mexicanos, criando-se assim uma corrente de ódio insustentável e que rompe de maneira espetaculosa, como apenas Tarantino sabe fazer, ao fim do filme.

Diante de tantos personagens enjaulados em seus ódios, impedidos de avançar com suas vidas, ao ponto de, em sua sede de vingança, arruinarem-se de maneira permanente me parece claro que, não, os filmes de Tarantino, não fazem apologia à vingança. Ao invés de vender-nos uma gaiola de ódio na qual nos prender, Tarantino está pintando nossas gaiolas da já existentes de vermelho sangue berrante, que é pra ver se as conseguimos enxergar. O diretor busca tornar a vingança cômica, ridícula até, por vezes divertida e, assim, denuncia que o vilão sempre foi a gaiola de ódio nos prendendo e nos transformando em perigosos animais acuados. Perigosos porque, como já dizia Paulo Freire, sem educação para a liberdade, para a empatia, para libertar-se do ódio que estagna e que banaliza o mal, o sonho de todo oprimido será tornar-se opressor.

REVIEW: A insustentável leveza de ANTI.

Milan Kundera, em seu clássico contemporâneo “A insustentável leveza do ser” flerta com a ideia por trás do mito do Eterno Retorno, segundo o qual, tudo aquilo que acontece apenas uma vez e que, depois, desaparece de uma vez por todas, não tem peso, está morto por antecipação e, por mais belo e mais esplêndido (ou mais atroz) que seja aquilo, tal beleza e tal esplendor não têm o menor sentido. Teria sentido, teria significado, apenas aquilo que se repete indefinidamente ao longo do tempo.

Milan exemplifica o mito usando a Revolução Industrial, afirmandor82 que o franceses teriam muito mais dificuldade em orgulhar-se dos atos bárbaros de Robespierre, se a Revolução devesse repetir-se indefinidamente através do tempo. Mas, como ela não deverá tornar a acontecer, os anos sangrentos não passam de histórias, palavras, discursos. Leves como uma pluma, incapazes de incutir medo. A brutalidade que se repete, entretanto, essa não tem remissão. O que se repete é pesado. O que é fugaz e passageiro, é leve. Milan questiona, a partir daí, a ideia clássica de que o peso é um valor negativo e a leveza, positiva: na poesia amorosa o amante quer receber o fardo do corpo daquele que deseja, de modo que o mais pesado dos fardos, representa, ao mesmo tempo, a mais vital das realizações. Portanto, se por um lado, ausência total de peso leva o ser humano a tornar-se mais leve do que o ar, a voar, distanciar-se da terra, a tornar-se semi-real, um ser de movimentos tão livres quanto insignificantes, por outro lado, quanto mais pesado é o fardo, mais próximo está-se da terra, mais real e verdadeiro se é.

Onde nesta dicotomia estaria ANTI, o novo álbum de estúdio da Rihanna? O comentário recorrente desde que a atrapalhada maratona de lançamento do confuso novo álbum da cantora começou, é o de que ANTI se parece cada vez mais com a versão da barbadiana do controverso álbum de 2013 da Lady Gaga, ARTPOP, e isso, por si só já é uma boa pista para a pergunta acima. Não é nenhum segredo que ARTPOP, apesar de ter alcançado a posição de nº 1 na principal parada de discos da Billboard, falhou em alcançar o sucesso comercial e de crítica dos seus antecessores. Isso e uma estratégia de divulgação confusa e atrapalhada o tornam um alvo fácil para a comparação com ANTI.

Há, porém, algo mais em comum. Assim como ARTPOP teve para a carreira de Lady Gaga o efeito de alienar os ouvintes ocasionais da cantora, isto é, a maioria das pessoas, aquelas que não são grandes fãs de música pop, mas apenas ouvintes casuais dos grandes hits, assim também a sonoridade urbana, conceitual e, frequentemente, imprevisível e heterogênea das 13 faixas de ANTI possivelmente não atrairá os milhões de ouvintes casuais da Rihanna, que estão acostumados a poderem contar com nomes como o dela e o de Katy Perry, para produzirem os hits das pistas de dança, em geral, mais divertidos e facilmente digeríveis do qualquer uma das faixas presentes neste novo trabalho.

Mais do que esteticamente rebeldes, porém, ambos os álbuns partilham a enorme e confusa variedade de influências, que por vezes soam simplesmente aleatórias, como detalhes e traços aos quais ouve-se rapidamente em uma música e dos quais não há nem sequer sinal na música seguinte. ANTI é, como ARTPOP foi, fugaz, caleidoscópico e, portanto, ocupa o polo da leveza na dicotomia com a qual iniciamos o texto. É como se não houvesse uma mensagem a ser dita, como se não houvesse um significado, é como se não existissem. Como se não tivessem, ou tivessem muito pouco, peso. E o que não tem peso é livre, sem dúvida, e só isso já poderia justificar o mérito artístico indubitável desses dois trabalhos. Mas há um preço a ser pago por tamanha liberdade: o que não tem peso não tem impacto.

E o que seria a qualidade-peso, quando falamos de um trabalho supostamente artístico como é um álbum? Falamos aqui, é claro, de consistência. Um salve a Rihanna e a Lady Gaga pelos esforços de rebeldia, originalidade e pelo grito de liberdade que, em minha opinião, já garantem a legitimidade do esforço artístico que empreenderam. É, no entanto, impossível ignorar, diante de trabalhos recentes (como o “25” da Adele, “Unorthodox Jukebox” do Bruno Mars, “Beauty Behind the Madness” do The Weeknd e o álbum autointitulado da Beyoncé) que é um feito realizável manter a balança entre liberdade artística e consistência musical, se não inteiramente equilibrada, perto o suficiente disso.

“Anti” tem, tal qual ARTPOP tinha (Venus <3), bons momentos. Há uma trilogia no fim do CD de três faixas que se harmonizam entre si, embora destoem completamente do resto do CD. “Love on the Brain”, “Higher” e “Close to You” destacam-se como as faixas mais consistentes do álbum todo. São, individualmente, imperfeitas, mas juntas formam um epílogo dotado de uma coesão que falta ao resto do álbum, cujas faixas, na verdade, dão a impressão de haverem sido retiradas cada uma de um álbum completamente diferente.

É refrescante sentir a leveza libertadora que existe em uma das maiores hitmakers (se não a maior) deste século fazer um álbum tão pouco comercial. E, talvez, só por isso, ANTI já valha a pena. A imperdoável falta de consistência, entretanto, ameaça fazer com que o álbum passe para os anais da música pop como tão irrelevante quanto aquele cigarrinho de maconha que você experimentou uma vez na faculdade e que, justamente por ter acontecido uma só vez, você sequer lembra dele, porque ele não diz absolutamente nada a seu respeito.

O preço de viver

Imagem
O mercado de ações está em colapso
A felicidade é agora empresa de ação pública
Mas o dinheiro para comprá-la
Para agora e escuta
Será sempre do preço do que
Por pouco te falta

Quem foi que morreu e deixou-te dono do mundo
Para que como em tua descartável arara de camisetas
Pusesse-te a distribuir tuas horrendas, pobres e caras etiquetas
Foste tu quem subfaturou meu valor
Eu nasci caro, eu juro
Mas como o lobo de Leonardo
Infame usuro
Fizeste-me barato, impuro.

Agora vivemos todos para pagar teu alto preço
Correção monetária de que não se vê o começo
E pergunto a mim mesmo
Que diabólico direito divino é esse
Que legitimou tua simpática e discreta escravidão
Que te permite curvar-me obediente como se eu entendesse
Porque é estou de quatro servindo de degrau à tua ascensão.

Meu pai vem do sertão
Enquanto eu só vivo para chegar a Versailles
E a culpa é tua por escravizar-me nos mínimos detalhes
Meu pobre lindo
despretensioso sertão
Nunca tiveste chance de em mim fazer verão

Tal como eu, o rebanho trabalha
Sol a sol, o fuso horário do sucesso
Vinte e quatro horas ou nada
Pela recompensa que, diz-se, virá
Sem tropeço
Para os que continuarem pagando
Para aqueles pobres que de si ofereceram tanto
Que já agora nada mais tem para dar
A recompensa fica mesmo pra deus dará

É esta a alternativa?
Competir pela pele cancerosa mais tostada de sol?
Este, já nascido de tua vilania
no mundo esse
Cuja proteção rasgaste como lençol
E tudo porque querem de mim esse sonho
Se a mim vocês ficam acordando
não sei como posso sequer vir a sonhar
Como posso
Se tento chegar ao sonho
mas insistes em me parar

Enfim, se a alternativa é essa
Melhor que humilde, trabalhador, fodido e tostado
É ser um preguiçoso, um revoltado
É incompreensivelmente vagar
Em direção alguma que se conheça
Minando teus altos preços,
Revolucionando os teus contextos
Derrubando os imóveis que não posso (não quero) comprar
Bomba a bomba
Tornando o mundo lugar mais suportável
Simples, realizado
Apenas porque eu vou pela sombra.